quinta-feira, 11 de abril de 2013

Durante as conferências realizadas por Krishnamurti em Poona e Bombaim, Índia, foi-lhe feita a seguinte pergunta: “Conforme pensa, assim se torna o homem. Não é essencial saibamos uma maneira de não ficar à mercê de nossos pensamentos maus e incontroláveis?” Eis como respondeu o grande pensador: Em primeiro lugar, o interrogante começa citando a frase: “Conforme pensa assim se torna o homem”. Não é um fato muito curioso este – de que não sabemos pensar directamente num problema? Temos citações e mais citações em apoio de nossas teorias – citações do Bhagavad-Gîta, de Marx, Sankara, Churchill ou Mau-Se-Tung. É incapaz a nossa mente de observar e experimentar qualquer coisa directamente. Esta sabedoria de empréstimo destrói-nos a capacidade de descobrirmos a Verdade por nós mesmos. (risos). Sim, senhores, estais rindo e não sabeis quanto há de deplorável atrás do vosso riso. Vossa mente está inibida, tolhida; e uma mente inibida é incapaz de ser livre. Só é livre a mente que compreende que se acha tolhida; então há possibilidade de fazer-se alguma coisa. A mente que diz: “Não estou inibida”, “estou repleta de conhecimentos”, “estou recheada de citações das ideias alheias”- é incapaz de descobrir o que é Real. O homem de tal mentalidade vive num nível “de segunda mão”. Agora, a segunda parte da pergunta é: “Não é essencial que saibamos uma maneira de não ficarmos à mercê de nossos pensamentos maus e incontroláveis?” Nesta pergunta, duas coisas se subentendem. Diz ele: “Como posso manter-me livre dos pensamentos maus e incontroláveis?” Prestai muita atenção isto, porque é importantíssimo; pois, se puderdes realmente perceber-lhe a significação, se puderdes penetrar as palavras, descobrireis alguma coisa. Não me acompanheis apenas “verbalmente” – isto é, não fiques apenas escutando as palavras e as vibrações de palavras; penetrai o que estais ouvindo. Existe o pensador, a entidade separada do pensamento, separada dos pensamentos maus e incontroláveis? Tende a bondade de observar a vossa própria mente. Dizemos: “Há o “eu”, que deseja permanecer separado dos pensamentos maus, dos pensamentos instáveis, erradios”. Isto é: Há o “eu” que diz: “Este é um pensamento extravagante”, “Esta é uma acção má”, “Isto é bom”, “Isto é mau”, “preciso controlar este pensamento”, “preciso reter este pensamento”. É isso o que sabemos. A pessoa, o “eu”, o pensador, o juiz, a entidade que julga, o censor, é diferente de tudo isso? O “eu” é diferente do pensamento, diferente da inveja, diferente do que é mau? O “eu” que se diz diferente de uma coisa má está sempre lutando para sobrepujá-la, dominá-la, lutando para tornar-se alguma coisa. Tendes, pois, esta luta, este esforço de banir pensamentos e de “não ser extravagante”. No próprio “processo” do pensar criou-se este problema do esforço. Compreendeis? É então que nasce a disciplina, o controle, por parte do “eu”, do pensamento mau; o esforço do “eu” para tornar-se não invejoso, não violento, para ser isto ou aquilo. Criastes, pois, deveras, o processo do esforço, no qual figuram o “eu” e a coisa que ele está controlando. Este é o fato real de nossa existência de cada dia. Ora bem, o “eu” que está observando, o observador, o pensador, o agente, é diferente da acção, do pensamento, da coisa que ele observa? Temos dito até agora que o “eu” é diferente do pensamento. Consideremos, pois, esta coisa: que o pensante é diferente do pensamento. Diz o pensante: “Meus pensamentos são erradios, maus; por conseguinte, devo controlá-los, moldá-los, discipliná-los”. Nesse processo criou-se o problema do esforço e a fórmula negativa “não ser”. Tende a bondade de “escutar” o que estou dizendo, sem interpretá-los; se escutardes com muita atenção, vereis surgir algo extraordinário. Como disse, criamos o esforço sob formas diferentes – de negação e afirmação; tal é a nossa vida de cada dia. Mas existe alguma diferença entre o pensador e o pensamento? Investigai-o. Há diferença? Isto é, se não pensásseis, existiria um “eu”? Se não houvesse pensamento, ideia, memória, experiência, existiria o “eu”? Dizeis que o “eu” é a entidade superior, a coisa que está acima do pensamento e que vos guia e governa. Pois bem. Se dizeis isso, tornai a considera-lo; não o adopteis. Se dizeis tal coisa, então essa mesma entidade que pensa a respeito do Atman, continua compreendida na esfera do pensamento. Toda coisa suscetível de ser pensada está na esfera do pensamento. Isto é, quando penso a respeito de vós, no nome próprio que sei, quando vos reconheço, já vos achais na esfera do meu pensamento, não é verdade? Meu pensamento está, por conseguinte, em relação com vossa pessoa. Assim, pois, o Atman, ou o “eu superior”, ou qualquer palavra que preferirdes, está sempre na esfera do pensamento. Vemos, pois, que há sempre uma relação entre o pensador e o pensamento; eles não constituem dois estados separados, mas um processo unitário. Só há, pois, pensamento, o qual se divide, a si mesmo, em duas partes – pensador e pensamento, atribuindo ao pensador a preeminência. Esse pensamento cria o “eu”, que se torna permanente, porque, na verdade, é este o estado a que ele aspira: a segurança, a permanência, a certeza, - nas relações, com minha esposa, meu filho, minha sociedade; sempre o desejo de inalterável certeza. O pensamento é desejo; por conseguinte, o pensamento, o desejo, buscando a certeza, criam o “eu”. E o “eu”, então, se fecha na permanência e começa a dizer: “Preciso controlar os meus pensamentos, preciso banir tal pensamento e adoptar tal pensamento” – como se esse “eu” tivesse existência separada. Se observardes, vereis que o “eu” não é separado do pensamento. É aí que se faz sentir a importância de se experimentar realmente essa coisa, de que o pensador é o pensamento. Esta é a meditação verdadeira: o descobrir como a mente está sempre produzindo a separação do pensador e do pensamento. O processo total do pensar é o que nos interessa, e não o “eu” que quer observar o pensamento, que cria, que domina, que subjuga e que sublima pensamentos. Só há um único “processo”, que é o pensar. O pensamento que declara “esta é minha casa” é inspirado pelo desejo de segurança, nessa casa. Identicamente, quando dizeis “minha esposa”, esse pensamento implica segurança. Vemos, pois, que o “eu” ganha preeminência na certeza. Há só um processo, que é o pensar, pois não há “eu” separado do pensamento. Nessas condições, ao reconhecerdes esse fato, ao apresentar-se esta percepção, esta compreensão, que acontece aos pensamentos erradios, instáveis, que saltitam para todos os lados, como borboletas ou macaquinhos? Quando já não existe censor, quando já não há nenhuma entidade que diz “Preciso controlar o pensamento” – que acontece? Segui bem isso, senhores. Existe então “pensamento errático”? Entendeis? Não há mais nenhuma entidade operando, julgando; por conseguinte, cada pensamento é um pensamento de per si, e não deve ser comparado e declarado bom ou mau. Por conseguinte, não há divagação ou instabilidade. Só há pensamentos erráticos quando o pensamento diz: “Estou divagando; não devo fazer aquilo; devo fazer isto”. Quando não há o pensador, a entidade que quer controlar o pensamento, então o que nos interessa é só o pensamento tal qual é, e não como deveria ser. E descobrireis então quanto é belo observar, na sua realidade, cada pensamento e a respectiva significação; porque, então, já não há pensamento errático. Eliminai definitivamente o problema do esforço, pois não se pode alcançar a Realidade por meio de esforço; o esforço tem de cessar, para que a Realidade possa apresentar-se. Deveis ser receptivos. Não se trata de recompensa ou castigo. Não se trata de uma recompensa às vossas boas acções. Á sociedade interessa a vossa respeitabilidade, mas à Verdade não interessa. Para que a Verdade possa existir, o pensamento deve estar em silêncio. Não deve o pensamento estar em busca de recompensa ou punição, e não deve ter apreensões. Só nesse estado de espírito em que há busca, é possível manifestar-se a Verdade. A Verdade resultante de busca não é Verdade nenhuma; é somente uma voz projectada do “eu”, traduzindo a sua ambição de preenchimento. Assim, pois, ao perceberdes tudo isso, ao perceberdes na sua incerteza o quadro em que se mostra como a mente opera, não há então pensamento para controlar nem disciplinar; todo pensamento tem então sua importância; há a observação do pensamento, com o pensamento, com o pensamento no papel de observador que observa o pensamento, coisa essa dificílima de experimentar-se, uma vez que requer uma extraordinária lucidez e tranquilidade de espírito. Todo pensamento é resultado da memória – da memória que não é mais do que um nome. Porque, em verdade, nós pensamos com palavras; vosso pensamento é produto ou “projecção” da memória; a memória é constituída de imagens, símbolos, palavras. Portanto, enquanto houver aquela “projecção”, haverá pensamento. Um homem interessado em compreender o pensamento deve, por conseguinte, compreender todo o processo da sua produção: dar nome, lembrar-se, reconhecer. Só então há possibilidade de a mente se tornar totalmente tranquila. Essa tranquilidade vem com a compreensão. Pode então a Verdade dispensar ao indivíduo as suas bênçãos, chegar-se a ele, libertá-lo de todos os seus problemas; só então surge o ente criador – que não é o homem que pinta quadros, escreve um poema ou trabalha dez horas por dia.

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